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    Carioquices - por Baby Carioca
     


    E viva o Ano Novo Chinês

    Bacana aquele vermelho todo e o dourado pelas ruas, com uma multidão de gente andando vagarosamente pelo meio. Notei poucas vezes o calor, minha atenção estava naquela massa de pessoas, famílias inteiras, algumas com olhos puxados, outras de cabelos crespos, vários tons de pele, imersos naquele vermelho, bem misturados. Bonito de ver.
    Dragões e leões. Mães com crianças no colo, cheiro de shoyo num corredor, frutas cítricas no outro. Vagarosamente as pessoas caminhavam e aguardavam pacientemente umas as outras para fotografarem a mesma paisagem.
    E eu ali, ouvindo uma banda chinesa cantando Led Zeppeling, enquanto me surpreendia entre pilhas de clássicos do cinema, tentando escolher alguns dentre os vários que desejo ver, para levar para casa, para assistir com você. À tarde. Juntos. Na cama. Com uma imensa sensação de que ser feliz é mesmo muito, muito simples.



    Escrito por Baby Carioca às 15h48
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    Poemas Hai kai

    Tomas Tranströmer


    Os fios elétricos
    estendidos por onde o frio reina
    Ao norte de toda música.

    O sol branco
    treina correndo solitário para
    a montanha azul da morte.

    Temos que viver
    com a relva pequena
    e o riso dos porões.

    Agora o sol se deita.
    sombras se levantam gigantescas.
    Logo logo tudo é sombra.

    As orquídeas.
    Petroleiros passam deslizando.
    É lua cheia.

    Fortalezas medievais,
    cidades desconhecidas, esfinges frias,
    arenas vazias.

    As folhas cochicham:
    Um javali está tocando órgão.
    E os sinos batem.

    E a noite se desloca
    de leste para oeste
    na velocidade da lua.

    Duas libélulas
    agarradas uma na outra
    passam e se vão

    Presença de Deus.
    No túnel do canto do pássaro
    uma porta fechada se abre.

    Carvalhos e a lua.
    Luz e imagem de estrelas salientes.
    O mar gelado.



    Escrito por Baby Carioca às 15h59
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    PRETEXTO

    Tenho catado estrelas para ver se te ilumino. Assim, meio que por acaso. Não pode parecer proposital. Nem por isso deixa de ser tudo muito estranho. Acho que você vai gostar. Vai até pegar uma meia dúzia para colar no teto do teu quarto.  Hum, talvez isso não colabore muito com a tua insônia ... Mas você já perdeu noites de sono por coisas muito menos poéticas. Um teto cheio de estrelas é um bom motivo. Teu céu particular. Chique você hein?!

    Na verdade as estrelas eram para mim, mas lembrei que eu precisava de um pretexto para voltar a falar com você, daí inventei essa história de emprestar algumas. Isso se você quiser é claro, não precisa cumprir o protocolo da boa educação comigo. Essas coisas não me compram, acho que você sabe disso. Sabe???

    Outro dia cismei de catar areia. Branca, amarela, preta... andava com um potinho no bolso acredita? Era para cobrir meu chão num canteiro de areia colorida, um pedaço de todos os chãos por onde andei. Se quiser posso te dar um tanto. Para que serve? Ah, é para fazer jardim no chão do quarto! Cê pode plantar teus pés e ficar ali no sereno do teu céu cheinho de estrelas e brincando de árvore. Como se nada mais lá fora importasse. Como se tudo partisse dali. O epicentro do mundo no teu quarto.

    Quer tentar? Posso te mostrar. Se quiser eu faço teu céu pra você e te planto. Quando você achar que é hora, me fala que eu vou lá te colher. Mas conta só pra mim tá? Pra outra pessoa não vale.



    Escrito por Baby Carioca às 17h11
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    COMPONDO MEU SILÊNCIO

    Uso a palavra para compor meus silêncios.
    Não gosto das palavras
    fatigadas de informar.
    Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
    tipo água pedra sapo.
    Entendo bem o sotaque das águas.
    Dou respeito às coisas desimportantes
    e aos seres desimportantes.
    Prezo insetos mais que aviões.
    Prezo a velocidade
    das tartarugas mais que a dos mísseis
    Tenho em mim essse atraso de nascença
    Eu fui aparelhado
    para gostar de passarinhos.
    Tenho abundância de ser feliz por isso.
    Meu quintal é maior do que o mundo.
    Sou um apanhador de desperdícios:
    Amo os restos
    como as moscas.
    queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
    Porque eu não sou da informática:
    eu sou da invencionática.
    Só uso as palavras para compor meus silêncios.


    (Manoel de Barros - Memórias inventadas para criança)



    Escrito por Baby Carioca às 17h33
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    DOIS

    Curiosamente, depois de tantos anos, ele continua me ensinando tanto sobre esse mundo das artes, essas coisas tão ricas que não alcançam alguns (como eu) tanto quanto deveriam. Talvez pela secura da dura realidade cotidiana que acaba tragando qualquer pedaço de sonho, para transformar em coisas simples como manter-se vivo.

    Cotidianamente, e claro que curiosamente também, acho que ensino para ele um pouco sobre esse lance de amar, fazer o amor crescer e incluir cada vez mais gente nesse bolo, e dividir com todo mundo um pouquinho. Porque no final, só tem graça se todo mundo puder pegar um naco dessa coisa toda e carregar consigo quando estiver longe e então assim, sentir-se perto.

    Alimentamos disso esse milagre que é a nossa vida juntos, de peito aberto frente ao outro, encarando as diferenças como um mundo novo a ser descoberto, diariamente.



    Escrito por Baby Carioca às 17h47
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